Fica na história o Golpe de 64

Imagem

Nasci ainda no tempo que o Brasil tinha restos de Ditadura, foram mais de vinte anos de um período sangrento. Tinha entre 3 e 4 anos quando os generais deixaram o poder. Não vi de perto gente desaparecendo, nem tenho caso de tortura na minha família. Mas algumas marcas me lembro deste momento, que é meu relato histórico, aquele que com certeza vou passar para outras gerações.

Antes tinha ouvido sim e estudado sobre o Golpe Militar nas primeiras aulas de história, depois que você estuda sobre civilizações e demais assuntos, o professor do “antigo ensino fundamental e ginásio” lhe fala sobre este período. Mas isso ainda era recente, agora se fala mais, bem mais, a ilusão da “Revolução dos Militares”, “o medo dos comunistas” foram alguns dos motivos que por muito tempo não trouxeram as verdades dos porões da Ditadura.

Tenho certeza que no Instituto Educacional Emmanuel havia sim histórias de “porões”, mas confesso que muita coisa, por muito tempo deixou de ser dita em sala de aula, talvez também pelo medo da repressão, não era muito distante o tempo em que pessoas sumiram, foram assassinadas, presas, exiladas e até mesmo desqualificadas por um regime político e social totalmente covarde e violento.

Na vida real a tal Revolução

A grande revolução foi ter feito o ensino médio numa das principais instituições históricas, quando se fala em Golpe de 64, Lyceu de Goiânia. Aí vi algumas cicatrizes da Ditadura bem de perto. Não só de relatos de professores que foram vítimas dos porões da Ditadura, que traziam marcas profundas e relatos que não se vê em livros didáticos. A instituição tinha lista de alunos desaparecidos, entre eles Marco Antônio Dias Batista, desaparecido aos 15 anos de idade, que dava nome ao Grêmio. Sou daquelas que sempre gostei de uma boa pesquisa, investigação, de ouvir depoimentos, conhecer histórias, além da História.

Sempre concordei que toda e qualquer manifestação popular deve ser consciente e clara ( Por isso fui contra a midiática e sem sentido movimentos feitos recentemente do #vemprarua). Explico, um grupo de amigos quis entrar para disputa do grêmio da escola ( um dos mais históricos, prefeitos e governadores já haviam passado por lá). Aceitei, uma das propostas era abrir a Biblioteca ( ela estava fechada desde a Ditadura, ou seja, isto era o ano de 1997). Como um boa estudante, não estava na onda só para matar aula, ou qualquer rebeldia sem causa ( isto acontecia muito e era vergonhoso).

E realmente o grupo ganhou a eleição, confesso que desde período enjoei de algumas coisas massantes, : ), como Legião Urbana e muito Geraldo Vandré, com respeito a obra, algo pessoal. Lembro de ir com um grupo na tal Biblioteca fechada, entre elas minha amiga Samira ( até hoje uma das valiosas).Entre uma pilha de coisas, eu que já havia sido no colégio anterior ( Emmanuel) monitora de Biblioteca, fui ver livros que precisavam de catalogação, recuperação de capas e estas coisas. Não me esqueço então de achar uma caixa da Ditadura. (documentos que devem existir milhares por aí, Brasil afora). Eram redações e trabalhos de alunos que eram separados para possível investigação ( isto com carimbo e destinação), e o que mais me chocou letras e trabalhos de um Festival de Cultura e Artes, onde pelo que parecia os trabalhos, como partituras de canções tinham que primeiro ser passados para um revisor da ditadura, e muitos com carimbos Censurado.

Entre todos estes achados, eu me lembro de um poema, tenho anotado em um caderno da época ( qual estou sem acesso hoje), que contava a história de um pássaro que cantava por liberdade, Censurado. Foram dias e documentos que não me fizeram esquecer. (Lembrando que até quando estudei lá, 1999, a Biblioteca não abriu, não tinha autorização do governo). Também que não fiquei muito tempo pelo grêmio, até porque tinha que estudar, e preferia isso do que ficar ouvindo música matando aula ou outras coisas que nunca fez minha praia ( beber e fumar), acho que fiz a melhor escolha.

Onde mais se vê ditadura

Mas muitas são as marcas da Ditadura, no meu estado grandes nomes lutaram por muito tempo contra ela, marcas históricas e culturais ainda escutamos nas conversas de família. Diminuiu, mas quem nunca ouviu o comentário sobre comunista monstro. Em todos os lugares ela deixou suas marcas, não só de estudantes, de jornalistas, de líderes religiosos. Na Faculdade, como fiz Comunicação em uma Instituição Federal, muitos dos Mestres e Doutores tem muito o que contar, profissionais mais experientes também, da época em que todo espetáculo, trabalho ou rotina era devidamente vigiada.

Lembro de passar por alguns lugares, como a Câmara Municipal do Rio de Janeiro (foto), ou Palácio das Esmeraldas e me lembrar de fatos. Outros locais, que pessoas nem imaginam que hoje abrigam Centros Comerciais, Escolas e Hospitais que eram os famosos porões, onde se colocavam canções do Roberto Carlos ( como Jesus Cristo) e outras da Jovem Guarda para que não se escutassem gemidos, gritos e choros de sessão de tortura.

Mais do que nos livros, a Ditadura Militar ficou presente em toda família brasileira, do preconceito, da falta de credibilidade, do desconhecimento, da dor, da falta de liberdade, do medo de opinar. E isto sim deve ser refletido, não só num pensamento político, de forma literal, mas também social. Ter o cuidado para que a barbárie da tortura ( seja física ou psicológica) não seja vivida e defendida nas ruas, nas delegacias, nos lares. Matar ou espancar o ladrão não vai diminuir o crime de roubo, mas vai aumentar o de assassinato e o de agressão.

E assim segue todos os ideais que devem ser refletidos, “por que eu vou para rua?”, “como realmente eu posso mudar esta situação”. O consciente coletivo se engana, se assim permitimos ser manipulados. O Brasil teve uma perda histórica e de ideal? Não acredito nisso, mas acredito que toda informação será válida para boas ações, a começar do voto, este sim uma herança que não possamos esquecer.

“Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral
Vai passar ”
Chico Buarque (para bom entendedor basta o saber)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s